terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O Equilibrista (Fernanda Lopes de Almeida)


Era uma vez um equilibrista.
Vivia em cima de um fio, sobre um abismo.
Tinha nascido numa casa construída sobre o fio.
E já tinha nascido avisado de que a casa podia desmoronar a qualquer momento.
Mas logo percebeu que não havia nenhum outro lugar para ele morar.
O equilibrista ainda era bem jovem quando descobriu que ele mesmo é que tinha de ir inventando o que acontecia com o fio.

“_ Meu Deus! Que responsabilidade!”

Se queria ter uma festa, tinha que fabricar a festa com o fio.

“_ Não há nenhuma festa pronta para as pessoas ali na esquina.
 _ Não? Então vou fazer uma.

CONVITE PARA MINHA FESTA:
 _ Eu que fiz.”

Se queria ir a Europa, tinha que construir a viagem para a Europa.
“_ Tem aí uma viagem para Europa já viajada?
 _ Engraçadinho! Não quer mais nada não?”


Ele então transformava o fio em viagem.E a verdade é que não se arrependia:

“_ É incrível quanta coisa se pode fazer com este fio!”

Para ter amigos, o equilibrista tinha que procurar outros equilibristas.
As pessoas desequilibristas não queriam ser amigos dele:

“_ Que idéia essa, de viver assim! É louco!”

O equilibrista tentava se defender:

“_ A idéia não foi minha, já nasci assim!”

Mas as pessoas não queriam ouvir:

“_ Imagine se vou acreditar numa mentira dessas!”

Elas juravam que ninguém nasce assim.
O equilibrista então, ia se encontrar com outros equilibristas.
“_ Como vai?
 _ Vou me equilibrando dentro do possível.”


O equilibrista ficava um pouco assustado com a conversa dos desequilibristas:

“_ Como vai?
 _ Muito mal. Meu carro enguiçou.
 _ Como vai?
 _ Muito bem. Minha caderneta rendeu juros.
 _ Mas então quem vai mal e quem vai bem não são vocês. São o carro e a caderneta.
 _ Há! Há! Há! Olha o bobo!
 _ Qual a diferença?”


Os equilibristas também podiam ir muito mal ou muito bem.
Mas a conversa deles dava para entender:

“_ Como vai?
 _ Vou mal. Estou com um elefante na cabeça.
 _ Como vai?
 _ Vou bem. Hoje, pela primeira vez, eu verdadeiramente vi um beija-flor.”


É verdade que, às vezes, o equilibrista ficava morrendo de inveja de quem tinha um chão. Mesmo que fosse feinho.
Na mesma hora se desequilibrava e caía. Enquanto caía gritava.
O equilibrista fazia um esforço danado para saber onde era embaixo.
Afinal desistia:

“_ O jeito é ir desenrolando o meu fio!”

E desenrolava o melhor que podia.

“_ Pensando bem, gosto de ser equilibrista. Pensando bem, como é dura a vida de equilibrista! Pensando melhor, é ruim e bom. Tudo misturado.”

De vez em quando o equilibrista dava uma paradinha e olhava para trás:

“_ Puxa! Meu chão fui eu mesmo quem fiz!”

Tinha que ser uma paradinha rápida.

“_ Meu avô sempre dizia que quem pára demais para pensar acaba sem saber andar.”

Assim foi chegando ao fim do fio.
Antes de despedir-se, disse:

“_ Respeitáveis outras pessoas! Esta vida de equilibrista é perigosa, mas muito interessante. Por mim, fiz o que podia e achei que valeu a pena. Adeus!”

Umas pessoas concordaram. Outras, não.

“_ Eu também acho muito interessante! Viva o equilibrista!
 _ Eu não acho graça nenhuma!
 _ Eu acho que vale a pena! Vale muito a pena!
 _ Não vale a pena nada! Eu acho uma boa droga!”


O equilibrista deu um risinho:

“_ Justamente o interessante é que cada um acha o que quer!”

E saiu.

E você, é um equilibrista ou desequilibrista? Como vê a vida? Deixe um comentário. 

12 comentários:

  1. "O interessante é que cada um acha o que quer!”

    Maninha, confesso que o medo de altura me impede ver essa história com seu real conteúdo.
    Preciso me livrar de meus medos!
    :(

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  2. Uma vez, comentei com minha psicóloga (Na época ia... Sinto falta... Era tão bom!), que, às vezes, me sentia na contra-mão. Dava as impressões que as pessoas seguiam numa direção e eu queria ir pra outra, pois sabia que a que todos iam não era a mais adequada pra mim. Ótimo se era bom pros outros, mas pra mim, não era!Na sessão seguinte, ela me apareceu com um livrinho infantil (?) que era essa historinha! Sou equilibrista, preciso fazer eu mesma meu caminho!

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  3. Acho que sou uma equilibrista, minhas opiniões são sempre diferentes das dos outros, e as vezes acho que eles precisam me enquadrar.

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  4. Me sinto mais equilibrista do que desequilibrista também, Aleska!
    Seja feliz do jeito que for melhor pra você!
    Bom ver você por aqui!Bjins!

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  5. Lindo texto.
    Me sinto equilibrista, mas as vezes a gente desequilibra, da uma balançada, né? faz parte do caminho. bjs

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  6. Eu acho emblmática essa parte! Já me respnderam assim e pensei igualzinho! rs

    "Como vai?
    _ Muito mal. Meu carro enguiçou.
    _ Como vai?
    _ Muito bem. Minha caderneta rendeu juros.
    _ Mas então quem vai mal e quem vai bem não são vocês. São o carro e a caderneta.
    _ Há! Há! Há! Olha o bobo!
    _ Qual a diferença?”

    Quanta diferença! Queira Deus que sempre possa percebê-la!

    Bom ver você por aqui, Rosana! Dê idéias! Escreva! Você tem muito a dstribuir nesse blog, amiga! É seu também, viu?
    Bjins, minha amiga!

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  7. Completamente equilibrista, eu tenho caraminholas na cabeça

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  8. Baixar o Documentário - O Equilibrista - http://tinyurl.com/cvmfvue

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    1. Estou assistindo pelo Netflix! Obrigada pela dica!

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  9. Nossa...esses dias achei esse livro no meio das minhas coisas, e como gostava muito dele na infância comecei a ler para o meu filho de 2 anos. O livro virou o seu preferido e todas as noite tenho que ler novamente. Relendo e relendo essa história, percebo o quanto ela faz parte da minha educação e do desenvolvimento da minha personalidade e visão do mundo! Todas as crianças deveriam ter acesso a livros como esse! Muito bom e atemporal!

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  10. Nossa...esses dias achei esse livro no meio das minhas coisas, e como gostava muito dele na infância comecei a ler para o meu filho de 2 anos. O livro virou o seu preferido e todas as noite tenho que ler novamente. Relendo e relendo essa história, percebo o quanto ela faz parte da minha educação e do desenvolvimento da minha personalidade e visão do mundo! Todas as crianças deveriam ter acesso a livros como esse! Muito bom e atemporal!

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